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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Bahamas e os planos de contingências

Publicado em 1999, no CW

(*) Dedicado ao amigo Haroldo Barcelos, que nos deixou em 2001.

Seminário para definição final de procedimentos Y2k das empresas afiliadas da Southern Company. Vamos lá. Local: Freeport, capital da Grand Bahamas, região dos mares de vidros azuis esverdeados do Caribe. Época: final de Agosto, considerada a ideal para o nascimento dos furacões tropicais. Nas salas do Princess Tower, discutíamos os planos de contingências para o projeto do Bug nas 20 empresas coligadas(das quais a Cemig era uma ), que estariam fazendo um grande ensaio geral nos dias 08 e 09 de Setembro. No salão, discutia-se o check-list das ações contingenciais , caso o besouro surja imprevistamente na virada do ano. Plantões em unidades operacionais com o máximo de pessoas experientes, documentação concisa e prática, canais de comunicação devidamente testados e disponíveis em 4 graus de tecnologias alternativas . Tudo ok.
Na TV, o anuncio assustador de Dennis, que se aproximava da região, com o jeitão furioso de um furacão classe 3. A CNN apresentava aquelas animações de nuvens nervosas e espessas, dançando em círculos, num rito de espera das grandes ventanias. Os hotéis começavam a mostrar nos seus saguões, gráficos com a rota ameaçadora de Dennis e as previsões de chegada em Freeport do seu sopro infernal para o sábado(data marcada para nosso retorno a Miami), Estávamos justamente ali para discutir contingências. Com as palmeiras das ilhas já devidamente escoradas , os reforços de janela sendo comprados como pão quente, iniciamos o nosso plano de ação para retornarmos antes de sermos apresentados pessoalmente a Dennis. Aviões lotados, claro. Todos os americanos já com suas passagens marcadas, embarcando na 6a feira. Os dois brasileiros(eu e o saudoso Haroldo Barcelos(*)) estavam com vôo marcado para sábado, pela manhã, quando Dennis visitaria a ilha. Sexta feira, terminado o seminário, vamos eu e o Coordenador do Plano de Contingência da Cemig para o aeroporto de Freeport, tentarmos o impossível. Encontrar 2 passagens em qualquer artefato voador que nos levasse para os lados seguros do BaySide, na sonhada Miami do art-deco. Encontramos as últimas. Uma passagem, perfeitamente endossável, é trocada imediatamente, sem qualquer questionamento pela atendente. A outra, a minha, com uma tarifa de liquidação, não poderia ser endossada. Plano de contingência acionado: Cartão de crédito sacado e compro a última passagem existente. Pela TV, já em Miami, assistimos a chegada furiosa de Dennis. Plano de contingência é algo que todos devemos pensar , independentemente do bug. Esse será um dos grandes ganhos colaterais que as empresas terão após a virada de 1999, que, espero, será serena como um final de tarde alaranjado nas Bahamas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Ser humano relacional ou objeto?

O ser humano relacional ou objeto?

A notícia vem de Boca Raton. Pela primeira vez uma família de humanos teve implantada nos seus tecidos uma pequena tabela relacional. Um pequeno chip, do tamanho de um grão de arroz, contendo informações sobre cada membro da família, foi implantado com anestesia local. A informação armazenada transpôs a barreira da pele e registra nas suas tuplas, a princípio, somente informações sobre telefones e medicamentos de uso corrente. Cada chip hoje custa US$200 dólares e os dados são lidos por um scanner de US$2000 dólares apontado para parte interna do braço, onde provavelmente será o gabinete do homem-chip. Os dados podem ser “joined” com outras tabelas de um sistema externo, onde informações diversas sobre planos de saúde, inss, etc estarão complementando o nosso futuro BD (de) pessoal, agora na acepção da palavra. Os americanos, idealizadores do projeto, não questionam pontos de validade ética da idéia. Analisam a praticidade do homem-tabela que seremos num futuro próximo. Cada um dos nossos registros terá uma chave surrogate (única e sem semântica) que permitirá a nossa identificação unívoca e precisa, tal como nos “pets” americanos de famílias abastadas. Seremos rastreados por GPS, teremos um endereço IP exclusivo e universal que permitirá a nossa conexão direta na grande rede, bastando para isso que injetemos uma simples cápsula de protocolo wireless . Seremos clientes e servidores ao mesmo tempo em que nos aproximaremos do conceito inicial do ser humano digital, já desenhado por Spielberg. Aliás, de digital, até agora, tínhamos somente a impressão. Poderemos ir além dela, aponta a tecnologia, com a promessa de novos chips corporais. Quem sabe, poderemos optar por tecnologias variadas. Escolher um SGBD pessoal, tipo Oracle versão HB(Human being), bom para os momentos de contemplação e meditação, como sugere o nome do produto.Os libertários do código livre poderão agora sentir as benesses ou os desafios do Linux na própria pele, antes de experimentá-los nas escolas públicas do Vale do Jequitinhonha. Estariam Gates e Ellison interessados nesta teoria de objetos encapsulados e de códigos neo-arteriais que passaríamos a portar? Respostas para a redação. Os práticos poderiam fazer um download de um componente Java, cheio de inteligência artificial para melhor auxiliar na declaração do IR. Certamente aparecerão os chips paraguaios que abendarão com maior freqüência e provocarão erupções cutâneas, prontamente resolvidas com uma pomada a base de silício. Os problemas de vírus criarão uma confusão especial na área da saúde pública. Aproveitaríamos para aplicar os corretivos da Avast e da Kaspersky juntamente com a antitetânica ou com a preventiva de gripe. O conceito de computador pessoal se deslocará da nossa mesa de trabalho para as proximidades do sistema linfático. Hollywood tem feito bastante mas certamente pouco, com relação ao que poderemos ser.
O perigo será alcançarmos o estágio sem retorno de homem robot. Robot de quem?, perguntaríamos rapidamente no Brasil, onde o verbo e o substantivo produzem imediatos equívocos fonéticos. Conseguiriam os protocolos de SSL conter os ímpetos corruptos dos nossos governantes? O triste mesmo seria esquecermos de estender as mãos por causa de problemas de versão desatualizada ou deixarmos de chorar quando preciso, por falta de refil no cartucho.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Por que gosto do Vasco?

Por que você gosta de um certo time de futebol? Influência do seu pai?, dos amigos dele? de um vizinho seu ? Ninguem sabe, ao certo. As razões são viscerais, sobem do fundo da alma, de uma forma mais rápida do que a nossa capacidade de racionalizar o seu porquê. Desconfio que gosto do Vasco por causa de uma foto que ví, quando menino ainda,na casa de vizinhos portugueses, em Cruzeiro-SP, onde nascí. O quadro comemorava o campeonato carioca de 1956, numa época em que o Flamengo havia sido tricampeão(53-54-55). Entretanto, paixão não se explica. Paixão se consome, como uma raspa generosa de doce de leite. O Vasco, na realidade, arrebata pela sua história e apaixona pela sua trilha. Aqueles que não as conhecem, não sabem da grandeza do seu gesto e da eternidade de seus efeitos. O Vasco foi o primeiro clube carioca que aceitou nos seus quadros os negros e os pobres. Isso numa época, onde o esporte era instrumento de segregação, praticado seletivamente por poucos abastados e fazendo jus a sua nobre origem britânica, quando aqui desembarcou no início do século. O clube recém formado para participar do Campeonato Carioca, fora preterido pelos grandes da época(Fla e Flu, farinhas do mesmo saco aristocrático e Botafogo, eterno coadjuvante) sob a falsa alegação de não ter um estádio para receber os seus jogos.Na realidade, o que incomodava a aristocracia da ocasião eram os negros e pobres que vestiam aquela estranha camisa, com uma faixa diagonal saliente e uma cruz de malta encarnada. Em menos de dois anos, em nome do desafio que lhes fora imposto, a torcida e seus simpatizantes, ergueram , por conta própria, o maior estádio de futebol do país, na época: São Januário.E o Vasco voltou da liga discriminada, para o circuito de destaque da capital do pais. Dos grandes clubes do Rio, o Vasco é o único da zona norte, doce e sofrida região da cidade, onde se encontra gente humilde, com cadeiras nas calçadas e na fachada escrita em cima , que é um lar.O Vasco tem até algumas vantagens sintáticas sobre os seus rivais: É o único time, com um nome dissílabo, o que permite que seja gritado em coro, com o seu nome original: VASS..CO, VASS..CO. Os outros, tiveram que usar subterfúgios de redução para caberem no grito que vem do coração(NENN-SE, MENN-GO, FOO-GO).Até no grito lançado da alma, somos mais originais. O Vasco tem uma torcida apaixonada e pelos artistas que o amam, verifica-se a pluralidade de sua paixão. O Vasco de Paulinho da Viola, que um dia cantou sobre um rio que passou em nossas vidas, e que meu coração se deixou levar. Coração de vascaíno,sobreposto por uma cruz de malta, que lhe protege contra os euricos, urubus e pó-de-arroz do dia a dia. O Vasco de Roberto e Erasmo Carlos, com detalhes tão pequenos de nós dois, que somente o cruzmaltino decifra a noite, envolvido no silêncio do seu quarto. O Vasco de Martinho da Vila, que, maliciosamente, propõe se esconder debaixo dessa sua saia para fugir do mundo até ser exorcisado pela água-benta desse olhar infindo. Um vascaíno só se esconde nas franjas da malícia. O Vasco de Luiz Melodia, que cantou que se alguém que matar-me de amor, que me mate no Estácio, morro da zona norte, que do alto do seu "micro-ondas", testemunha a grandeza preto e branca, mistureba de seu povo. O Vasco de Aldir Blanc, que observou que quando caía a tarde, feito viaduto e um bêbado trajando luto, me lembrava Carlitos. Um Carlitos, tão chapliniano, quanto um drible de Romário. O Vasco de João Ubaldo Ribeiro,Rubem Fonseca e Carlos Drummond de Andrade, que sempre tiraram de letra os momentos de rima pobre, por que passamos pela vida.
O time com a maior vocação para os grandes artilheiros do Brasil, formando os Ademir, Dinamites, Romários e Edmundos, é um grito de alerta, como Gonzaguinha viu. Por uma porta entreaberta, percebe-se que somente dois vascaínos fizeram mais de 1000 gols na história do futebol brasileiro: Pelé, declaradamente vascaíno e Romário, geneticamente vascaíno. A camisa do Vasco, foi a única de um clube de futebol(fora Santos e seleções ), que o Rei usou antes de se aposentar. Em 19/06/57, ainda menino, fez 3 gols no jogo Belenenses(Portugal) e combinado Vasco e Santos. Esse é o Vasco que amamos. O Vasco anárquico de Chacrinha, brilhante de João Ubaldo Ribeiro e elegante de Danuza Leão. Você pode até não ter simpatia por ele. A história nos ensinou a respeitar as diferenças. Os cruzeirenses não gostam dele pois em 1974 perderam o campeonato mais ganho da sua história. Bobagem: No futebol, o fraco vence o forte, mesmo que o Armando (M)marque(s) um impedimento duvidoso de Zé Carlos. Os atleticanos se simpatizam com ele, pois, além das cores comuns, temos os mesmos inimigos. Independentemente de paixão ou ódio, de preferir o azul ao preto e branco, não se esqueça de que uma parte fundamental da liberdade e da democracia , que tem no futebol um dos seus instrumentos mais amplos, nasceu nas imediações de São Januário...

Sucesso ou fracasso do CMM/CMMI/MPS.BR

O Sucesso ou fracasso do CMM
Carlos Barbieri


Publicado no CW em 2004, como referência somente ao CMM. Hoje os conceitos valem para CMMI e MPS.BR

O sucesso da implantação de processos de melhorias de software, via CMM ou através de qualquer outro caminho depende de muitos fatores , que variam do técnico ao cultural. As empresas que já alcançaram algum nível de maturidade (vinte e poucas no Brasil em nível 2 e menos de 4 em nível 3, até final de 2003) provavelmente têm receitas diferentes nos seus mecanismos próprios de implantação. O primeiro fator a se considerar é que um processo dessa natureza não é suave, o seu caminho é difícil e o seu retorno, nem sempre certo. Sem um esforço perfeitamente orquestrado entre equipes e dirigentes as chances de sucesso diminuem. A presença marcante de uma gerência envolvida com os ônus do processo é um dos fatores determinantes e que caracterizam as bem sucedidas em CMM.Caberá a eles, gerentes de níveis variados, o delicado senso de flexibilizar no momento certo e intransigir no tempo oportuno, buscando o equilíbrio capaz de fazer com que o processo siga adiante sem rupturas. Outro fator passa pelos aspectos culturais da equipe. Lembre-se que o processo de CMM não diz como fazer, e muito certamente as empresas envolvidas num processo como esse terão que rever as suas práticas de forma profunda. O “peopleware”, representado pelo conjunto de pessoas (gerentes, analistas, programadores, etc) com o perfil de trabalho modificado pelas novas práticas, responderá de maneira diferente. Variará de manifestações de euforia pela modernização de processos e de ferramentas, até o ceticismo explícito ou camuflado daqueles que já fazem bem sob as condições presentes, sem admitir concessões às mudanças. A escolha cuidadosa de pessoas com maior possibilidade de comprometimento com o processo, para ocupar pontos chaves(equipe SEPG, que coordena os trabalhos internamente, por exemplo) é ponto fundamental. Não é a toa que a primeira empresa a alcançar o nível 5 de CMM foi a Motorola, da Índia. A Índia é hoje reconhecidamente o pais onde melhor se aplica os conceitos CMM fora dos EUA. Na década de 70, por quatro anos, tive oportunidade de trabalhar com indianos, durante meu tempo de pós-graduação e mestrado no INPE em São José dos Campos. Desenvolvi diversos trabalhos, projetos e treinamento em conjunto com muitos deles. É um povo diferenciado. Além de uma consistente formação analítica, dedicação e concentração, são de uma retidão profissional e ética acima da média. Não é a toa que dominam o mercado off-shore de desenvolvimento de sistemas. Nós brasileiros temos a nosso favor a capacidade de improvisação, o tino correto para as decisões difíceis e o “timig” mais preciso, sobre o “quando” das coisas. Somos muito intuitivos, mas não gostamos de muita disciplina, de cronogramas, modelos, templates, etc. É um desafio especial ajustar o nosso perfil aos preceitos do CMM. Daí a necessidade de se equilibrar bem o rigor dos métodos com a nossa capacidade de realizar coisas, com o nosso famoso “brasilian little style”.Aos implementadores (consultores externos e equipe da empresa responsável pelo projeto CMM ) caberá a busca do ponto de equilíbrio entre a aplicação do academicismo solicitado e a permissão da informalidade não desagregadora. A simples aplicação de receitas pré-cozidas experimentadas em outras empresas não garante sucesso algum. Deverão receber o tempero de cada empresa. Há que se considerar os seus objetivos(selo CMM, melhoria de processos ou ambos), o entendimento dos seus aspectos culturais e a sua história de fracassos e sucessos recentes. Ciclos de treinamento e palestras de conscientização sobre as melhorias que se busca deverão ser planejados e aplicados com freqüência e intensidade. Em algum ponto desses diversos caminhos, cada empresa encontrará a sua receita de sucesso ou de fracasso do CMM.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

To pay a monkey

Segundo o professor Ronaldo Pimenta, no seu livro “A casa da mãe Joana” , a palavra “bisonho” foi originada no século 16, quando soldados espanhóis chegaram à Itália em grande penúria e em precaríssimas condições. Os espanhóis então apropriaram a palavra do italiano, que significa precisar (ho bisogno-eu preciso) e deram a ela o sentido de necessitado de ajuda e de comida, carente, sem condições, etc.. Por sucessivas lapidações semânticas, a palavra acabou, em português com o sentido que hoje possui.:inexperiente, inábil e principiante. A revista Business2.0, recentemente publicou uma reportagem que conta os 101 momentos mais bisonhos da indústria americana(informática incluída) e que mostra, sob a forma de escorregões, que os grandes também deslizam.Alguns deles merecem a sua atenção:
Uma grande marca de roupas esportivas, com uma fruta no nome e no logo, que já esteve pelo Brasil também, planejou um lançamento revolucionário de moda , atraindo investidores com muitos dólares e pouco cuidado. A empresa lançou , como novidade, os figurinos da nova linha, todos com uma numeração dois pontos abaixo do padrão convencional. Ou seja, tentaram inventar a roupa que não servia. Resultado: A companhia quebrou depois de um índice de devolução de 80%, causando, sem nenhum trocadilho, o que se chamaria no Brasil, de uma verdadeira saia justa....
Os executivos de uma grande rede mundial de lanchonete (hambúrguer), encontrada também por aqui, foram convidados a participar de um treinamento moderno de “empowerment”, daqueles que melhoram os bolsos dos seus inventores e nada acrescentam ao perfil dos que o praticam. No caso, até que acrescentou...Depois de breve estadia pela selva, foram internados com queimaduras de primeiro e segundo graus nos pés, após caminharem por fogueiras acesas, objetivando o desenvolvimento de “skills” para vencer obstáculos e circunscrever desafios. O manual de empowerment, não deixou claro se as opções por rare (mal passado) ou well done(bem passado), diferencial nos atendimentos da rede, tinham a ver com os graus de queimaduras acontecidos....
O artigo segue enumerando “micos” interessantes, que envolvem desde o criador do Netscape(Marc Andreessen), quando lançou a sua nova companhia, num IPO em março de 2001. Diferente da primeira empresa, na época do frisson IPO, quando as ações da Netscape dobraram de valor nas primeiras horas, no último, os papéis lançados a US$6, fecharam o dia a US$2,45. O nome da empresa LoudCloud, talvez diga algo. Significa nuvem barulhenta, espalhafatosa.. Não deixa de ter sentido..
A Enron, falecida maior empresa de B2B do planeta, mereceu 15 citações no artigo, todos com o sugestivo título de “Houston, we have a problem”. Num deles é citada a entrevista emocionante da esposa do CEO da Enron, quando às lágrimas, falava da situação financeira complexa, por que passavam, por somente terem ações da companhia em bancarrota. Isso antes de ter sido revelado as reais posses do casal : US8 milhões de dólares em ações de outras empresas e minguados US20 milhões em imóveis. No outro, a revista cita, num grande exercício de fair-play, o fato de que o CEO da finada tinha sido a capa do número de setembro de 2001, como símbolo da “revolução digital” daquele ano, pouco antes do início das descobertas de suas ficções fiscais, onde a bem da verdade, revolucionou os dígitos... A própria revista que publicara a reportagem dos “101 dumbest moments in business” , acabara de exercitar e reconhecer o que no Brasil , chamamos de “to pay a monkey”.

sábado, 24 de outubro de 2009

Livros de BI-Business Intelligence e Modelagem de Dados

A partir de hoje, dia 15/06/2011, fica suspensa essa promoção, em função do lançamento do novo livro BI2-Business Intelligence,Modelagem e Qualidade. Grato a todos os mais de 300 "doadores" que, sob o pretexto de comprar um livro, ajudaram a amenizar(por pouco, que seja) a dor e a angústia de pais e crianças com câncer em MG. Valeu... Abs CB
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Já falei aquí sobre os livros que escrevi. Na realidade, os livros se esgotaram, não necessariamente, por seus méritos, mas por incompetência das editoras que escolhi. Vez por outra,recebo e-mail de pessoas que desejam adquirir os livros, que infelizmente não são mais encontrados. Sendo assim resolvi digitalizá-los e disponibilizá-los para os interessados, que não deverão me pagar nada.

Entendi que seria uma boa oportunidade para nós(eu e os interessados) esboçarmos um pequeno gesto de solidariedade , estendendo a mão aos mais necessitados, que num pais como o nosso, continuam legados a um patamar de esquecimento e de menor importância. Assim, os interessados em receber os livros(BI-Modelagem e tecnologia) e (Modelagem de dados) deverão fazer o seguinte:

1)Fazer um depósito de R$30,00(trinta reais) na conta da Casa de Apoio à criança com Cancer, entidade seríssima,para a qual contribuimos mensalmente. A conta é :

Banco : Itau
Agência: 3826
Conta: 00200-2
CNPJ: 02471591/0001-00
Valor: R$30,00(trinta reais)

2)Fazer um depósito de R$20,00 a 25,00, dependendo do local, avisado por e-mail, na minha conta para o pagamento da postagem, via Sedex. Era R$16,00, mas alterei devido ao aumento do SEDEX. A referência que usei foi BH-SP. Para outros lugares, como Norte,NE,etc assumo a diferença. OBS: Válido somente para os interessados que moram fora de BH. Para os que aqui residem, entrego em mãos ou deixo o CD na portaria do meu prédio,cujo endereço informo no e-mail de resposta. A minha conta:

Banco : Itau
Agência: 3828
Conta: 00116-8
ref: Livro de BI
Valor: R$16,00(dezesseis reais)

3)Enviar, um e-mail para carlos.barbieri@gmail.com , com as imagens dos 2 (ou 1 ) comprovante(s), juntamente com o nome e endereço para envio.

Grande abraço e o agradecimento das meninas e meninos desafortunados da CACC.

Carlos Barbieri
twiteer:CarlosBarbieri

domingo, 4 de outubro de 2009

Indústria do Vocábulo

São 18:30 horas, de uma sexta feira, que fecha um outono decadente e silencioso . No 30. andar de uma torre de aço escovado e janelas fumê estilo GUI, espigada no centro efervescente de uma grande metrópole, um homem com uma listagem na mão adentra por uma sala enorme, suavemente carpetada, e se dirige à mesa do gerente geral, que lhe pergunta:
“Como foi a produção da semana ?”
Ele, de pé responde:
“Not so bad”, relembrando a última entrevista com Larry King.
“Para a área de informações gerenciais”, continua ele sem esconder uma ponta de orgulho, “cunhamos garimpagem de dados(data mining), limpeza de dados(data cleansing) e destilaria de dados(data distillery)”.
“Para a área de bancos de dados, produzimos o label “servidores universais”(universal servers) e o índice de recall foi excelente. Somente 10% dos pesquisados acharam que se tratava de movimentos religiosos”.
“ Na área de redes, entretanto foi fraco”, diz com resignação, “somente inventamos o rótulo de servidor proxy”.
“E os pedidos da semana?”, interroga o chefe, ainda olhando fixo para a tela azul do micro, que lhe apontava o quinto –fatal error- do Windows 95.
“Continuamos a trabalhar no setor Web, onde a encomenda é grande, mas as combinações já se esgotaram (dataweb,infoweb,sqlweb,interweb,netweb,web-all,cyberweb,dbweb,webworld,webweb) e até o Messias, aquele brasileiro que contratamos para o marketing, sugeriu Web-Camargo, …mas confesso que não entendi…”. Pano rápido.
Esse diálogo, obviamente ficcional, na realidade, poderia ter acontecido na hipotética WORDGEN-WORDIX, a mais importante usina mundial de produção de vocábulos e palavras. E quem é ela? Essa empresa, imaginária e sorrateira, prolífica e atuante, funciona virtualmente nos laboratórios, departamentos de marketing e teses de PHD dessa formidável indústria que tanto conhecemos. A Informática. Nela, até com um sabor de paradoxo, não se usa diretamente os computadores como meio de propaganda. Preferem o mais poderoso hardware do planeta. O Retroprojetor. Com uma CPU do tipo 3-M standalone, ou conectada a um servidor Powerpoint, todos os bugs desaparecem, as camadas se falam com ótima performance e o “market share” é sempre crescente….
Até uma palavra foi inventada para definir esse estado interessante em que vivem mergulhados os departamentos de marketing das empresas de Informática, em constante gestação por novidades. Buzzword: Essa palavra, que é usada para designar assuntos efervescentes do momento, normalmente récem saídos dos tachos da indústria, tem uma mensagem subliminar. Extraída, via onomatopéia, do sons das abelhas, no fundo sugere algo que faz barulho, tem um “quê adocicado”, mas não nos avisa de nada fundamental, a menos de uma picada dolorosa, por manejo indevido. Quase sempre associado a uma buzzword vem uma manifestação de tecnologia, pretensamente inovadora , com envólucros brilhantes, mas de consistência nem sempre tão revolucionária. Quase sempre tem algo de “deja ouvi” por traz das fitas de celofane que amarram essas soluções .
Você não deve mais se lembrar das rajadas de siglas e “buzzwords”, que já lhe estilhaçaram a curiosidade desde que você decidiu pela profissão de informata. Cliente Servidor, Internet,Intranet e agora Extranet(você sabe o que é uma extranet?). Se não sabe ainda, não se preocupe, pois daqui a pouco você já estará falando sobre isso, em plenário de botequim, com a intimidade dos experts.
Essa formidável indústria também já protagonizou definições equivocadas, principalmente no campo dos óbitos compulsórios. A linguagem Cobol foi condenada a câmara de gás no meio dos anos 80, com o surgimento das linguagens de 4a geração. Hoje, ainda permanece linda, leve e solta habitando importantes “libs” do planeta. Sem contar, que com o projeto 2000, os seus programadores valerão, no mercado, tanto quanto craques brasileiros no futebol europeu. No início dos anos 90, o mainframe foi condenado a revelia e posto no corredor da extinção irrecorrível. Hoje, segundo uma importante publicação americana de negócios, com data de capa de 07 de Julho desse ano, eles estão de volta.. Voltaram, segundo a reportagem, pois apresentam melhor relação de preço/performance e ROI(return of investment) do que a esquadrilha de máquinas Unix e Wnt, colocadas como servidores de dados e aplicações, na febre da tecnologia cliente/servidor.
Uma grande empresa do ramo eletrônico(8 bilhões dólares/ano) é uma das cinco empresas piloto no projeto de portar, de volta para o mainframe, um dos estratosféricos pacotes integrados de gestão, originalmente vendido para plataformas baixas. Os 500 gigabytes de dados armazenados e processados irão para o mainframe, de onde alias, nunca deveriam ter saido. A pesquisa apresentada aponta ainda, que hoje, aproximadamente 300 empresas estão retornando suas aplicações para o mainframe, e que em 1998, esse número atingirá a casa dos milhares.
E a redundância de dados? Definida como o pior dos males, na época do nascimento dos Bancos de Dados, hoje se torna um fator fundamental nos novos caminhos dos sistemas gerenciais. Os DataWarehouses e DataMarts do planeta, nada mais são do que replicações estratosféricas de dados, extraídas do ambiente operacional. Hoje estamos todos, sem nenhum rubor explícito, preparando os nossos ambientes de tomada de decisão, redundando( em grande parte) o arsenal de dados estocado desde sempre.
Essa produção acelerada de vocábulos e novidades na área de Informática em geral, e de dados em particular, já está resvalando nos limites dos sindicatos e dos conselhos regionais. Explico melhor: No início foi a Filosofia de Dados, Arquitetura de Dados e Engenharia de Dados(Informações), seguido da Administração de Dados. Depois numa incursão na área artística, vieram as técnicas de Modelagem, com os Modelos de Dados . Mais recentemente, novas áreas e profissões foram alcançadas pelos tentáculos dos produtores de palavras. A área de varejo foi agraciada com os conceitos de Armazém e Mercado de Dados(DataWarehouse e DataMart respectivamente) que trouxe a reboque a insólita Destilaria de Dados(técnica usada em projetos de DataMart e DataWarehouse, para se purificar os dados antes de sua carga e utilização).A área mineral também se faz presente nesse mesmo segmento com a Garimpagem de Dados(Data Mining) e a de estética (??) também participa com a novísima Massagem de Dados, pérola encontrada nos últimos seminários de DataWarehouse e que representa as técnicas de preparação e limpeza de dados, antes de serem mostrados aos usuários exigentes. A literatura sobre DataWarehouse também cita etapas de Data Cleansing(limpeza de Dados) e Data Nursery (algo como enfermaria/viveiro de dados), que mais parece ser dedicada ao tratamento dos velhos sistemas legados (Ims,Idms,Adabas,etc) que habitam os mainframes. É uma etapa, digamos, que antecede a geriatria de Dados.
E o futuro? Bem, os dados, após uma fase minimalista, onde foram encapsulados aos processos e se transformaram em meros objetos, com aguda crise de identificação, certamente merecerão a atenção do lado psíquico da Informática. Produtos para desemcapsulamento e reidentificação de dados e tratameto de síndromes de polimorfismo, certamente serão oferecidos pela indústria. Preparemo-nos, pois algo como Neurolinguística e a Holística de Dados deverão ser o “must” de uma temporada futura.
Que tal encomendarmos uma?

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sábado, 26 de setembro de 2009

MG e a vocação pela qualidade de software

As montanhas de Minas são emblemáticas no seu silêncio e na forma contemplativa com que nos observam a todos. Esse Estado das alterosas, circundado por elas, aprendeu com as forças das montanhas, que obstáculos são elementos que vivemos para ultrapassar. Isso sempre nos fez bem. Aprendemos também, por influência delas, que devemos nos comportar praticando o seu silêncio. Isso nem sempre nos fez bem. É nessa combinação de força e silêncio que, por certo tempo, a nossa informática se colocou numa discreta posição de sétimo ou oitavo lugar, enquanto o nosso PIB se posicionava em segundo ou terceiro. Simples: temos uma competência em Informática espessa, porém difusa e silenciosa. Ha vinte e poucos anos, a Índia, resolveu incluir na sua história, algo mais do que os palácios suntuosos e a sua miséria obscena. Resolveu que seria uma das melhores alternativas, se não a melhor opção de engenharia de sistemas do planeta. Está a caminho, quase chegando lá. Pelos quatro cantos do planeta já se ouve a sua voz e já se fala da sua competência. Antes da novela das oito, a Índia já era conhecida pela sua força na construção de software. Em Minas, estamos iniciando um movimento bem mais modesto, mas à altura das nossas montanhas. Com as suas forças, mas sem a sua mudez. Estamos nos preparando para fazer desse estado um participante ativo e notado no campo da informática, principalmente na esfera da qualidade de software. Em 2005, os números estimados de certificações CMM e CMMI, apontavam que SP tinha aproximadamente entre 22 a 24 certificações. O RJ possuia em torno de 4 a 6 , o RS possuia entre 4 a 6 , o DF possuia em torno de 2 ou 3 , PE possuia 3 e a Bahia 1 , ES 1, CE 1 e Minas Gerais possuía uma única certificação. A certificação solitária de Minas Gerais, pertencia a um conceituado Instituto de ensino, pesquisa e desenvolvimento em Telecomunicações, localizado em Santa Rita do Sapucaí (INATEL). A partir daquele instante , uma engenharia de software mais aplicada, começou a mudar os números por aqui nas Alterosas. As empresas começaram a buscar melhor qualidade nos seus processos e a investir em métodos formais de qualificação. Começamos com a Spress Informática(N2), depois veio a MSA-Infor, hoje Spread(N2), depois a Unisys-BH(N5) e depois novamente a Spress(N3), a MSA-Infor(N3), e a Squadra(N2) . Naquele mesmo momento, começava a nascer o MPS.BR, o modelo brasileiro equivalente ao CMMI, desenvolvido e apoiado pela Softex-Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro, que oferece programas de apoio ás empresas interessadas em melhoria de processos. Por iniciativa da SECTES e FAPEMIG, a Fumsoft criou o CCOMP.MG, célula dedicada ao desenvolvimento de conhecimentos na área de Engenharia de Software, com foco em MPS.BR e CMMI. Hoje, temos em MG, em números de setembro de 2009, 29 certificações, num total de 150 no Brasil. O estado de MG ocupa a segunda posição, logo atrás de SP, que tem 35 certificações. A primeira empresa com certificação dupla CMMI e MPS.BR, a Synos Technologies é também de Minas Gerais. A primeira empresa que mescla MPS.BR com metodologias ágeis, em níveis mais elevados de maturidade, deverá ser daqui também(Powerlogic). E outras tantas, cujos nomes não caberiam nestas linhas. Esse alcance vai muito além de um trabalho competente das empresas , de suas diretorias e de seus empregados. Ela mostra que MG está se preparando para mudanças definitivas. A Fumsoft-Sociedade Mineira de Software, através do CCOMP.MG tem desenvolvido , com apoio da Governo do Estado e Softex , um trabalho que se materializa nesses números. No próximo dia 8/10, no Inovatec, lançaremos o G7(sétimo grupo de empresas, em busca de patamares de excelência em software). Já realizamos a implementação em 3 grupos já terminados(apoiados diretamente pela Sociedade Softex), e mais 2 estão em fase final de avaliação. O G6, iniciado em Maio de 2006, e o G7, a ser lançado em outubro, terão o apoio direto do Governo de Minas Gerais, via o APL de Software. O Governo de Minas Gerais trouxe, para dentro de seu projeto estruturador, o conceito de qualidade de software. Temos agora em BH, quem possa nos dizer de viva voz, como se chega ao nível 3(CMMI) ou C(MPS.BR) de um processo que visa a troca do artesanato de software pela engenharia de sistemas. Temos, cada vez mais, exemplos locais a serem dados nas salas de aula , sem termos que importá-los, do exterior ou do interior. Os nossos alunos de graduação e de pós poderão, a partir de agora, citam as as empresas que começaram a construir uma história de sucesso, apostando na qualidade como elemento diferencial. Esperamos que até o fim deste ano mais 2 ou 3 empresas subam de patamar e coloque Minas Gerais com 31 ou 32 certificadas em MPS.BR, nos posicionando,cada vez mais, próximos da locomotiva paulista. E dessa forma , o nosso Estado estará iniciando um novo rumo, as empresas mineiras mudandoos seus caminhos e Minas não mais trabalhará em silêncio.

domingo, 13 de setembro de 2009

Pega na mentira

Artigo publicado em setembro de 2002

Zico está no Vasco, com Pelé. Minas importou do Rio, a maré. Esses versos, deliciosamente ingênuos, escritos pela dupla Roberto e Erasmo Carlos, em um dos muitos hits dos anos 90. parecem ganhar contornos de maior consistência nas teias da WEB, em 2002. Depois de muito torpedearem os internautas com explosivas pesquisas de informação a respeito de dados pessoais, os seus propositores chegaram a seguinte conclusão : os dados coletados de muito pouco servem, pois estão recheados de “fib”, mentirinhas inconseqüentes, como dizem os americanos., e dessa forma, invalidam quaisquer decisões apoiadas neles. Estima-se que 42% das respostas na internet, envolvendo idade e salário, por exemplo, são falsas. E esse próprio valor, pode ser, recursivamente, uma inverdade, pois a real percentagem de “fib” pode ser muito maior. Com o objetivo de colocar uma espécie de detector digital de “fib” na WEB, no melhor estilo “pega na mentira”, a IBM está se utilizando das técnicas de Data Mining, desenvolvidas nos seus laboratórios de Almadén, na Califórnia. A idéia passa pela aplicação iterativa de algoritmos elaborados, sobre uma amostra de dados, onde certas informações potencialmente falsas(como idade) são substituídas por números randômicos, definidos em certas faixas. Posteriormente, por análises graduais e subseqüentes, esses “ruídos” introduzidos poderão indicar a distribuição real das variáveis ausentes, com alto grau de precisão. Esses métodos, denominados de “perturbação randômica” tem como vantagem a possibilidade de se preservar informações indesejadas de serem fornecidas, satisfazendo uma demanda por maior privacidade. Essa abordagem de se retirar dados de uma amostra, colocar “ruídos” no seu lugar e depois partir para a reconstrução de sua curva realista de distribuição não é novidade e tem longa história na ciência estatística, onde estão fincadas as técnicas de Mining. As mesmas técnicas de Mining que com as ferramentas que as implementam, ainda carecem de maior visibilidade de mercado, quando comparadas com as de OLAP, suas irmãs na família de BI. O mercado de Mining, ainda com alto grau de fragmentação, se divide em ferramentas mais genéricas, independentes de aplicação, (IBM Intelligent Miner, SAS Enterprise Miner e Clementine da SPSS), normalmente as mais conhecidas. Depois aparecem as ferramentas específicas por algoritmos, concentradas em técnicas particulares, voltadas para problemas específicos(CART, Knowledge Seeker e Alice). Seguem as ferramentas voltadas para aplicações específicas, como CRM, relacionamento de mercado e previsão de churn (IBM Intelligent Miner, com segmento para CRM e SLP Infoware para churn prediction). Finalmente existem as ferramentas embutidas em pacotes de BI, como o Business Miner da BO-Business Objects, as árvores de mining do Analysis services da MS e o Miner da Oracle, entre outros. As ferramentas de mining, diferentemente das de Olap, requerem maior especialização no uso, critérios mais definidos na formulação do problema e até maiores investimentos, dependendo do volume de dados e da complexidade do projeto. Daí, a sua posição ainda tímida, que em tese poderia até deslanchar agora, com a demanda crescente por garimpagem de dados maquiados , grande moda do verão capitalista de 2002. Mas é pouco provável . Afinal os novos algoritmos da IBM estão ajustados para detecção de pequenas inverdades e não alcançaram o estágio sofisticado de percepção das grandes ficções contábeis de 2002...

sábado, 5 de setembro de 2009

Tecnologia dá saudade?

Publicado em dezembro de 2001, adaptado em 2009

Recentemente, por ocasião da visita do presidente da Microsoft ao Brasil, li nos jornais e ouvi de algumas pessoas, referências de saudades ao Word 2.0. Sempre entendi que música e perfume, além de pessoas, eram os ícones clássicos apontados como grandes acionadores das pequenas usinas de saudades que trazemos dentro de nós. Agora, pelo jeito, percebo que chegamos à saudade digital, onde sentimos falta da proximidade de certos códigos ultrapassados. Claro que as benesses tecnológicas que aprendemos a praticar ao longo da vida , por vezes criam certas relações de proximidade com as nossas preferências íntimas, e na informática , não seria diferente. Particularmente, neste caso, não me lembro com saudade do Word 2.0 e me confesso satisfeito com o atual, onde batuco essas mal traçadas linhas. O Gartner Grupo, tem uma curva interessante que mostra como as tecnologias nascem e passam por estágios diversos ao longo do seu ciclo. A análise do GG mostra que toda tecnologia tem um comportamento interessante . Começa numa fase de grande “frisson” , onde um disparo(trigger) a impulsiona numa curva ascendente em direção ao pico de entusiasmo, caracterizado por expectativas sempre infladas com relação aos seus resultados. Neste momento, começa a sua inflexão em direção a uma região de tempo-espaço chamado vale da desilusão, para depois ter um retomada mais consciente e menos inflamada em direção a um platô de convivência, onde terminará os seus dias. O Gartner não previu a fase de saudade que as tecnologias produzem depois do seu necrológico, mas brilhantemente mapeou as etapas de algo que lembra o casamento padrão. As grandes empresas, que debutaram nos anos 60 no cenário da Informática, estão neste momento em constante exercício de despedida de tecnologias , algumas já com fortes traços de bolor. No nosso caso, estamos preparando para redesenhar o vital sistema de sistema de Consumidores, depois de uma infrutífera incursão, em busca de um ERP que o substituísse. Nada encontrado, partimos para a lanternagem doméstica. O sistema, clássico dos anos 70, totalmente escrito em PL/1 e com as suas estruturas de dados montadas nas hierarquias do velho IMS, receberá um banho de modernidade digital e irá se alojar nas telas acrílicas da interface gráfica e nas estruturas relacionais do DB2, embora ainda persistentes inquilinas do velho e indivisível mainframe. Parte de sua competência sistêmica de performance e desempenho, obtida pelos artesãos da época(analistas e programadores) ficará agora sob a responsabilidade de máquinas mais poderosas e de discos inteligentes, numa alusão clara ao fim de uma época, onde o analista sobrepujava a tecnologia. Hoje, muito daqueles esforços que eram concentrados nos códigos de programas, já vem embutidos em caches de discos, otimizadores de bancos de dados e objetos encapsulados. Ponto para a tecnologia e saudade dos fluxogramas e modelos detalhados. A recente onda de substituição de sistemas antigos por ERP produziu muitos descartes desses tipos de códigos, dando vez ao enlatado digital que agora habita as nossas libs. Como a saudade por tecnologias de ontem pode sugerir senilidade digital, prefiro exercitar a saudade de outros códigos. Que tal sentir falta dos códigos de tolerância, de dignidade e de retidão outrora praticados?. Os de hoje, adaptados pelos políticos, vivem em constantes interrupções por erros e com freqüentes não conformidades de processos......

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Referências bibliográficas em BI





Livros:

Numerati-Stephen Baker-Ed.ARX
Fala sobre as diversas técnicas em desenvolvimento, visando mapear os perfis, atitudes, grupos,recursos humanos, clientes,etc através da análise do comportamento digital(internet) da sociedade
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CLICK-Bill Tancer-Editora Globo
O que milhões de pessoas estão fazendo on-line e por que isso é importante. O comportamento do mundo na internet. Os dados e seus tratamentos
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No Place to hide-Robert O´Harrow, Jr
Em inglês, fala sobre a poderosa indústria da informação confidencial nos EUA, detentora de grande volume de dados privados sobre cidadãos americanos
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Business Intelligence-Um enfoque gerencial para a inteligência de negócios- Efraim Turban,Ramesh Sharda,Jay Aronson e David King-Editora bookman
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BI-Business Intelligence-Modelagem e Tecnologia
Carlos Barbieri(esgotado)-falar com o autor(eu mesmo)
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Internet: Sites sobre BI,DW,Data Mining
http://www.daniel-lemire.com/OLAP/index.html
www.intelligententerprise.com
www.teradata.com
www.dmreview.com
http://www.information-management.com/
http://www.b-eye-network.com/
www.acxiom.com
Site de: oracle, microsoft,the datawarehouse institute, etc
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Outras palavras chaves a serem pesquisada no google:
DmReview
B-eye-Network
SearchCIO.com [SearchCIO@lists.techtarget.com]
IBM Database Magazine [db2@news.db2mag.com]
Intelligent Enterprise Blogosphere [IE_Blogosphere@news.intelligententerprise.com]
info@diveintoyourdata.com
ITtoolbox BI-Doers [ITtoolboxNewsletters@ITtoolbox.com]
Dimensional Insight [info@dimins.com]
Aberdeen Research [Aberdeen.Research@aberdeenreport.com]
Teradata [info.teradata@ncr.01o.com]
http://NCR.01o.com/ajtk/servlet/JJ?T=hr46i&R=295105298
Teradatauniversitynetwork.com [info.teradata@teradata.com]
Artigo: Math will rock our world-BusinessWeek,Jan/2006

Entrevista sobre BI- Revista Fonte-Prodemge

Perguntas a Carlos Barbieri- Entrevista dada à revista Fonte-Prodemge 2. Semestre de 2006

1. Quais são as tendências mundiais no uso de tecnologias de BI? Observando o mercado, quais são as perspectivas para o crescimento e para a diversificação no uso dessas tecnologias?
Resposta: Depois de ficar estacionada desde o seu início nas áreas de varejo, marketing, finanças e correlatas, a tecnologia de BI se expande em direção a novos segmentos de aplicações: As aplicações de BI nas áreas de Biologia, de tratamento de dados não estruturados, como documentos e e-mail e a especialização em informações de auditoria, apoiando as aplicações no campo de SOX(Sarbannes Oxley) são as novas tendências desse tipo de tecnologia. As tecnologias acessórias de BI, como Mining, qualidade de dados, ferramentas de extração e produtos de visualização de dados, continuam, por sua vez, numa trilha de evolução constante . Na área de web, os chamados Webhouses continuam em passo lento, com algumas evoluções, como a livraria virtual Amazon, que acaba de trocar seu banco de dados de clickstream (controle de clicks de um usuário por entre as páginas web de seu aplicativo), por um DW de 25 terabytes, buscando uma melhor forma de rastrear os passos de seus clientes nas andanças pelas suas prateleiras virtuais . Outra tendência que se consolida é o chamado BI operacional, ou a aplicação dessa tecnologia em dados mais próximos do dia a dia, tentando preencher um vazio que as ferramentas de consulta a Bancos de Dados não conseguiram e que se torna importante nas empresas. Essas aplicações de BI, digamos, instantâneo, chamadas de tempo real, focam em segmentos de negócios onde a distância entre o fato acontecido e a informação a seu respeito deve ter uma latência próxima de zero, pois o tempo para tomada de decisão é curto. Isso acontece em segmentos de call center, por exemplo, ou em empresas , onde o controle e o remanejamento de estoques é fator crítico. No campo das investigações e pesquisas, o BI deverá evoluir em conjunto com a gerência de conhecimento e suas próximas fronteiras, como gerência do entendimento(understanding manegement) e gerência da sabedoria ou intuição(wisdom management).
2. Decisões dependem não só da qualidade das informações disponíveis, mas também da capacidade do gestor de interpretá-las e usá-las na escolha das melhores alternativas. Na sua opinião, quais são as competências desejáveis ao executivo (usuário) num projeto de BI?
Resposta: BI é uma tecnologia de transformação e não solicita nada de especial de os seus consumidores de informações, a menos de certa destreza na pilotagem de ferramentas de interface gráfica e um senso analítico agudo nas suas interpretações. Esse “insight”, entretanto hoje já é muito ajudado pelas metáforas visuais que muitos produtos oferecem, como velocímetros, com ponteiros mostrando faturamento, ou gráficos coloridos de todos os formatos e sabores apontando tendências e fatos. Para aplicações mais sofisticadas, como análise preditiva, as técnicas de Mining já exigem um pouco mais de conhecimento dos seus usuários, por certa demanda de conhecimentos estatísticos.
3. Em que medida uma organização tem que adequar previamente seus processos e procedimentos para implantar a tecnologia de BI?
Resposta: Como já falei anteriormente, BI é meramente uma tecnologia de transformação e de análise. Transformação, no sentido de trabalhar as montanhas de dados que foram empilhadas durante décadas nos Bancos de dados transacionais e transformá-las em cubos ou estruturas dimensionais mais palatáveis e consumíveis por camadas táticas e estratégicas da empresa. Sendo assim, uma organização que caminha em direção a BI deve fazer algumas perguntas óbvias: Quais os meus objetivos diretos com essa adoção? Tenho os dados necessários para atingir os objetivos, ao transformá-los em informação? Se a empresa responder de forma convincente essas duas perguntas, os outros passos dependerão de fatores triviais, embora críticos, como investimento, apoio da alta direção e algum conhecimento ou busca da técnica e da tecnologia.

4. O desenvolvimento de um ambiente de BI traz impactos à cultura da organização? Que orientações o senhor daria para facilitar a assimilação da tecnologia, especialmente em organizações públicas?
Resposta: Não entendo que a técnica de BI traga uma mudança cultural, abrupta mas sim é fruto de novos momentos, onde as informações são demandadas com maior liquidez. BI pode ser vista como uma evolução das aplicações de bancos de dados, comuns desde os anos 80, que alcançaram os objetivos de armazenamento de dados, mas não o de provimento amplo de informações. As organizações públicas ou privadas que desejarem ingressar neste novo momento, deverão responder as 3 perguntas feitas no item anterior e decidir seus caminhos em função de suas respostas. Deverão atentar para os seu objetivos, conscientemente definidos, os dados já estocados na organização ou os que eventualmente precisam ser buscados no mundo exterior, e criar a disposição de comprometimento com um projeto que pode ser complexo e longo.

5. Considerando a intangibilidade do valor da informação, como o executivo pode perceber as vantagens de investir em BI, uma tecnologia que exige investimentos consideráveis? Especialmente no setor público, onde os recursos são de forma geral escassos, como equacionar essa questão?
Resposta: O grande direcionador de BI se deu com o aumento de competitividade das empresas, que decidiram conhecer melhor os seus clientes e seus hábitos (chamado de BI analítico), criando assim, uma ferramenta que ajudasse na capacidade de mantê-los cativo. Isso evoluiu para á área financeira, com análise de perfis de riscos, etc. Ou seja, a essência de BI surgiu , tendo a competitividade como mote. As empresas públicas, pelas suas características não vivenciam diretamente os aspectos de competitividade, pelo menos até agora. Sendo assim, o BI aplicado nas empresas públicas deve ter um foco mais qualitativo, no sentido de melhorar a informação daquele tipo de serviço ou consumidor e se aprimorar, se não pelo medo do , mas pelo sentido de bons serviços a oferecer. Os projetos, nas empresas de menor oxigênio em investimento, devem ser cuidadosos, primando sempre pela criação de depósitos (datamarts) setoriais de informação , factíveis de implementação em menor prazo e possíveis de sucesso em certos segmentos da organização, com um investimento relativamente menor.

6. Que cuidados especiais são recomendados na implantação da tecnologia de BI em organizações públicas, considerando-se suas peculiaridades em relação às organizações privadas: mesmo grau de exigência dos contribuintes e limitações próprias do setor.
Resposta: A última parte da resposta anterior serve como resposta para essa questão

7. Como compatibilizar a administração dos recursos tecnológicos e dos recursos humanos no desenvolvimento de uma cultura de BI?
Resposta: Da mesma forma que se administra a introdução de qualquer tecnologia, observando que é fundamental : a)Ter objetivos bem definidos para se formar uma base sólida, longe de modismos voláteis, b) Iniciar com um forte comprometimento da alta gerência e com a criação de motivações pelos novos desafios c) Prover e incentivar a qualificação das pessoas na tecnologia recém introduzida

8. Comente a afirmação de Davenport de que a ecologia da informação “devolve o homem ao centro do mundo da informação, banindo a tecnologia para seu devido lugar, na periferia”.

Resposta:Entendo que Homem e tecnologia estão condenados à uma vida conjunta, até o fim dos tempos. Com o crescimento populacional e a crescente demanda por comunicação, lazer,prazer, fazer, e porque não, viver, dificilmente essa dupla estará divorciada, a menos de puristas ecológicos e ermitões conceituais, que cultivam uma solidão encenada ou se apaixonam por platitudes de momento.

9. Como quantificar o valor da informação no contexto empresarial, relacionando-a com outros recursos da organização?
Resposta: O conceito associado ao valor da informação vem de muito longe, mas nunca teve uma cotação tão efetiva como agora, justamente na era, dedicada ao seu conceito. Entretanto, ainda persiste uma grande dificultar em se metrificar o seu valor . Por ser absolutamente intangível, e somente materializada por volumes de petabytes, o valor da informação tem sido motivo de propostas diversas, que possam expressar o seu real valor agregado. Uma das mais interessantes é a concebida por Bernard Liautaud, fundador da BO(Business Objects), que se utilizou dos conceitos de Bob Metcallfe para redes ethernet e definiu escala de valoração para a informação . Para os interessados, ver a referência : e-Business Intelligence-Benard Liautaud, with Mark Hammond, editora McGraw Hill, 2001

10. Que elementos o senhor considera determinantes para o sucesso de um projeto de BI?

Resposta: Apoio da alta gerência, objetivos firmes e definidos, boa camada de tecnologia à disposição e cuidado em se evitar projetos agigantados, pois esses têm quase sempre, o seu obituário definido antes de começar.

11. E que fatores apontaria como eventuais responsáveis pelo fracasso na implementação de um ambiente BI?
Resposta: A inobservância dos pontos acima definidos

12. Qual a sua opinião sobre a questão ética em ações de mercado baseadas na análise e uso de informações relativas a clientes e empresas?

Resposta: Esse é um aspecto cada vez mais tratado com cuidado em sociedades, onde os valores de ética são considerados relevantes e praticados. Nos EUA, o uso de informações de empresas aéreas sobre viagens e viajantes nacionais e internacionais foi amplamente questionado, como ponto flagrante de quebra de privacidade. Embora, em nome de uma causa nobre (prevenção anti-terrorista) , diversos movimentos questionaram e até anestesiaram, em certo grau, tais iniciativas. No Brasil, onde a ética e o saco de lixo se encontram com freqüência, há muito tempo, diversas editoras de revistas vendem(ou vendiam) o seu cadastro de assinantes, como base para produção de mala direta, num flagrante desrespeito aos conceitos da confidencialidade . Hoje o comércio de endereços de mail substituiu essa prática e pode ser obtido sem grandes dificuldades nos labirintos escuros da internet. Os depósitos de BI podem conter um grande volume de informações sigilosas, que vão desde o perfil de saúde de um cliente de planos assistenciais, até apontadores de inadimplência de tomadores de empréstimos. Diferentemente dos bancos de dados tradicionais, onde essas informações poderiam estar espalhadas por entre tabelas relacionais difusas, nos DW(DataWarehouse ou DM(DataMarts) elas podem se encontrar consolidadas e relacionadas ao tempo. Isso, sinaliza para um cuidado maior neste particular.
Recentemente, os jornais noticiaram, que diversos cadastros, ou partes deles oriundos dos bancos de dados estratégicos de órgão públicos federais podiam ser obtidos nas esquinas da Praça da Sé em SP. . Pensando bem.... num país como o nosso, onde até urânio é suspeito de enriquecimento ilícito, esses aspectos estão no longe de serem prioridades com valores importantes.

13. O tempo é elemento determinante na tomada de decisões num mercado dinâmico e competitivo. Como compatibilizar essa necessidade com o período necessário à implantação de um projeto de BI?

Resposta: Os aspectos temporais e fatores críticos para se criar uma solução de BI já foram discutidos em questões anteriores. O tempo, no aspecto de dimensão fundamental no uso de BI, está associado ao conceito de BI-Real Time. Os conceitos de BI-Real Time centram na idéia de se conectar estruturas relacionais existentes ou depósitos de informações transacionais, às camadas de utilização através de interfaces dimensionais amistosas. Essas soluções híbridas, entretanto tem sempre o dom de resolver parte dos problemas, mas produzir outros, ficando, assim o seu usuário, na posição de analisar a sua efetividade, fora dos anúncios e da oratória dos vendedores.

14. As peculiaridades do desenvolvimento de um projeto de BI e de suas ferramentas podem ser acolhidas pela estrutura tradicional de TI de uma organização? É recomendável a existência de uma área específica para essa finalidade?

Resposta: Houve uma época, nas décadas de 80 e 90, que as empresas criaram estruturas organizacionais voltadas para a administração de dados, espécie de vizinhos conceituais de porta dos DBA’s(administradores de bancos de dados). Essas estruturas foram sendo pulverizadas, na medida em que o surto de ERP(pacotes aplicativos prontos) chegou às empresas, especificamente na virada do milênio. Como os pacotes já vinham pré-cozidos e com os seus modelos definidos de fábrica, nada restava para se administrar de dados, a menos de seus inputs e de seus relatórios de saída. Essas áreas, ou o que remanesceu delas são, na minha opinião, fortes candidatas a assumirem o foco de administração, agora de informações e de conhecimento, numa nova fronteira que se avizinha. Nessa área, estariam os analistas e projetistas de informação, centrados nas premissas de BI.

15. Qual a formação recomendada a profissionais que atuam especificamente com BI?

Resposta: Os profissionais de BI devem ter senso analítico profundo, conhecimentos de estruturas e modelos de dados(relacionais e dimensionais) e habilidade em ferramentas de interfaces e de extração de dados

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Mensagem aos formandos de CC-2009-Fumec

Mensagem aos formandos da Ciência da Computação-Fumec-2009

No jornal do domingo, dia 24 de Maio, duas notícias chamavam atenção pelo contraste:

1) O ex-presidente da Coréia do Sul, havia se suicidado no dia anterior, depois de 5 anos de mandato. Acusado de envolvimento com corrupção(teria recebido milhões de dólares de uma empreiteira), suicidou-se envergonhado, se atirando de um despenhadeiro, deixando uma carta sobre o seu ato... Fosse isso uma mania por aqui, estariam bilionárias as indústrias dos jazigos e dos crematórios;
2) Logo abaixo, vinha a outra notícia: A Petrobrás, maior empresa brasileira, gastou mais de R$600 milhões de reais com ONG´s suspeitas e fantasmas, que recebiam dinheiro , sem qualquer fiscalização ou necessidade de comprovação de gastos.Milhões desviados da maior empresa brasileira, na calada da noite e sob o beneplácito da nossa eterna mansidão bovina...

Que país é esse em que vocês vivem, perguntaria atônito, um marcianito, que por aqui descesse :

Um pais que teve Pelé,Garrincha e Tostão, mas vive sendo driblado por políticos oportunistas, governantes corruptos e juizes lenientes.
Um país que teve Airton Senna e tem Felipe Massa, mas sempre chega nos últimos lugares nos grandes prêmios pela honradez e pela honestidade ;
Um país que teve a irmã Dulce, mas que considera otários os que pagam seus impostos em dia, respeitam as filas, agem com decência. Um pais em que os honestos e os com retidão de caráter se sentem, as vezes, acuados e ruborizados ;
Um país que teve juristas como Rui Barbosa, Raimundo Faoro e Sobral Pinto, mas que tem uma justiça cuja lógica deixa atônitos os bueiros e as sarjetas da Rua da Bahia.
Uma justiça que condena uma pobre senhora viúva que cuidou de um papagaio que lhe caiu no terreiro, no Alípio de Melo e que se transformou na sua única companhia de vida. Foi condenada implacavelmente pelo crime inafiançável de tráfico de animais silvestres. Justiça rápida e expedita, mas que se torna tetraplégica quando falamos de banqueiros poderosos, governantes comprometidos e de delinqüentes políticos de bigode acajú .

Sou da época em que crack era Pelé,Tostão e Rivelino, em que bala perdida era o caramelo esquecido sob a carteira do ginásio e que ato secreto era o encontro furtivo com a outra namorada....

E porque essas colocações talvez incômodas e ácidas, nesse domingo de festas e de celebração? Por que vocês, meus caros formandos da nossa Fumec, são e serão sempre parte integrante de uma frota de novas esperanças. Por aqui se cultiva valores como formação, família, caráter, retidão e competência, insumos necessários para mudarmos esse patropí esquisitão. E você provaram ter isso.Vocês representam o desejo renovado da opção pelo correto, pelo justo e pelo digno.

A esperança cíclica de que uma nova safra de brasileiros, formados e centrados em valores diferentes dos atuais , possa mudar algo de substancial neste pais produzindo gestos, atitudes e mudando conceitos, que nos tire definitivamente, do anedotário da história.

sábado, 22 de agosto de 2009

A IBM e os novos caminhos do BI-2009

A IBM anunciou em julho/2009, a compra do produto SPSS, por 1.2 bilhão de dólares. O produto focado para a área de análise preditiva deverá forçar a IBM a tomar uma decisão sobre um outro produto já existente na família: O Intelligent Miner. O caminho do Intelligent Miner será, provavelmente, o de perder o seu status solo e se incorporar às trincheiras do DB2 No mesmo dia em que anunciou essa aquisição, a IBM também lançou novos conceitos, como sempre, contendo rótulos interessantes e moderninhos:IBM Smart Analytics System e IBM Smart Optimizer System. A primeira proposta evidencia duas fortes tendências da Big Blue: A primeira delas, montar uma camada com o apelo da palavra da moda: Analytics. A IBM, através do seu também comprado Cognos 8, oferece um ferramental para consulta, relatórios, dashboard e processamento OLAP. Não tem nele as funções de mining e análise preditiva, que será oferecida, a partir de agora, pelo recém-adquirido pacote da SPSS. Essa combinação de processamento de BI e Mining, que será estendida para outras máquinas(não somente mais para as do genoma IBM), traz à tona uma outra tendência que se torna cada vez mais clara nos domínios das grandes produtoras de tecnologia : A IBM está entrando no mundo do chamado BI Appliance-conceito de utensílio de BI, onde uma solução é oferecida na sua totalidade, do tipo, porteira fechada, como se diz no interior. A solução virá empacotando serviços, máquinas, softwares aplicativos, softwares básicos, consultorias, etc. Isso traz a IBM de volta ao passado. Houve um tempo (anos 80) em que a IBM vendia tudo sob a sua sigla: da máquina, ao sistema operacional, do SGBD ao monitor de comunicações(o nome do equivalente a servidor de aplicações da época). Naquele tempo, o cliente ia buscar na IBM a solução completa para as suas necessidades de processamento.A velha IBM está de volta, e entra no mundo de BI, com os moldes de ontem, sem que isso signifique desvantagem.O outro anúncio da Big Blue também promete. Há muito tempo, a área de BD tem se defrontado com desafios impostos pelos perfis diferentes de sistemas e necessidades de tratamentos diferenciados de dados. O mundo se divide na dicotomia OLTP, para processamentos transacionais e OLAP para os processamentos informacionais. Essas duas formas de processamentos visam objetivos diferentes e exigem estruturas diferenciadas A saída foi quebrar o mundo dos BD em 2 universos distintos: BD processando transações convencionais e BD montando DW, com processamentos informacionais e analíticos, sob grande demanda no momento. A velha dicotomia OLTP e OLAP parece que poderá desaparecer num futuro próximo. A nova proposta da IBM, através do Smart Analytics Optimizer, a ser lançada no último trimestre de 2009, será um engine que objetiva definir taxas altíssimas de transações, dentro do seu mainframe da linha System Z. A idéia central é colocar os dados de alto tráfego em pools de memória de até 1 TB(veja bem, 1 terabyte) e através de compressão e processamento de vetores, aumentar em até 10 vezes os indicadores de performance.O otimizador do DB2, esperto como é, saberá direcionar a consulta para o BD definido in-memory ou para o BD transacional. A idéia é tentar oferecer num único produto o melhor dos dois mundos: o processamento transacional e o processamento analítico.Isso evitará os custosos e quase sempre demorados processos de ETC que fazem a ponte entre os 2 mundos. A IBM prevê a sua chegada num patamar onde a Oracle já oferece algo semelhante com o Oracle DB Machine e Exadata Storage Server e a Microsoft planeja e desenvolve o seu equivalente, sob o label de Projeto Gemini. Bem vinda , Big Blue, ao mundo fascinante dos processamentos dimensionais.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A internet e o cerebelo de Gerken

Artigo publicado em janeiro de 2003, em homenagem a Joel Gerken

Há quem diga que a Internet é a grande revolução social deste momento pororoca entre os dois séculos que presenciamos como testemunhas declaradas em cartório. Frase, relativamente gasta, mas de uma verdade compulsória. A grande teia tem provocado mudanças óbvias, algumas delas exaustivamente autopsiadas por esses retângulos de papel da mídia impressa e códigos html da mídia eletrônica. Exemplos de compra eletrônica, empresas em tempo real , jornais virtuais, etc . Outras, menos óbvias aparecem no nosso dia a dia e tocam dimensões por vezes imperceptíveis ou desconhecidas. A internet tem modificado certos vocábulos das línguas clássicas. Surfar, agora pode ser sem prancha., na língua inglesa. Navegar é preciso e pode ser realizado, somente tendo o Google, como bússola. A palavra portal, de uso bastante específico na nossa língua e, segundo Aurélio, com um foco arquitetônico: “A porta principal, ou o conjunto das portas principais, dum edifício nobre, ou de templo, em geral artisticamente ornamentadas” ou circulatório com “pertencente ou relativo à veia porta”, é um outro exemplo. Guindada ao conceito de entrada virtual dos grandes sites, a palavra foi trazida também para a nossa língua para definições mais abstratas. Recentemente, em viagem pela região de Minas, onde os campos das vertentes flertam com as montanhas da Mantiqueira, encontro Mindurí, pequena cidade auto denominada o grande portal do eco-turismo do sul de Minas. Nada físico, nenhum pórtico, mas tudo tão imaginário, quanto sugeriu a internet e um saboroso contraste entre o virtual do termo e os contrafortes do sul mineiro. Um outro exemplo de força da grande rede, veio de um amigo dileto. Surpreendido por um problema de saúde repentino e não explicado por vários médicos de São Paulo e BH, esse antigo analista de sistemas recorreu ao pronto socorro virtual das informações disperso na grande rede. Fez buscas intensivas, participou de chats, mergulhou em grupos de interesse, sempre em busca de algo que pudesse explicar, ou pelo menos sugerir, o mal que se aproximava, e que produzia sérios “interrupts” de alguns de seus periféricos(braços e pernas). Depois de muitas informações pacientemente elaboradas e discutidas com um jovem neurologista do Hospital Vera Cruz, foi feito o diagnóstico. O cerebelo, pequena engenhoca atachada à parte posterior da placa mãe do cérebro, começava a dar sinais de abends e desregulou a produção do liquor, espécie de envólucro hídrico do nosso backbone (medula). Como , infelizmente, nem todos os nossos componentes foram projetados para ser “fault tolerant”, e o cerebelo não é “hot swappable”, a saída foi esticar um tubinho que drenasse o liquor em excesso, diretamente para o intestino, criando um salvador segmento de rede, sem hubs ou switchs. Depois de 6 cirurgias, este amigo, outrora condenado, segue uma vida (praticamente) normal. Almoçamos juntos, uma vez por mês, e acabei testemunha da tenacidade de duas pessoas: Um leigo paciente, mas determinado analista de sistemas, que acreditou na força da informação dispersa na rede. Soube , extrair, filtrar, analisar, tal como um analista de Business Intelligence e tomar decisões, como um usuário. O outro, um jovem médico desafiador do impossível. Essa é a internet e suas influências. Resolvi escrever essas linhas, para garantir a veracidade desta história, que poderia ser confundida com outras ficções que circulam pela grande nuvem. Tal como o mundo real, a grande teia é cheia de imperfeições e virtudes. O negócio é ser como os nordestinos e encostar sempre no lado bom da rede....

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Informática e a responsabilidade social

Publicado em setembro de 2004

São 5:00 h da manhã no interior do Piauí. Tertuliano Silva Filho, 10 anos ,espera pelo caminhão que o levará da zona rural de Demerval Lobão, até a cidade, localizada a 30 Km ao sul de Teresina. Tertuliano se prepara para mais um dia de aula. Já colocou no embornal a lasca de rapadura e o pão dormido, que lhe garantirão a estabilidade até voltar, lá pelo fim do dia. A escola onde Tertuliano estuda, nos arredores de Demerval Lobão era uma das muitas que seriam contempladas com alguns computadores ligados à Internet, oriundos do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços deTelecomunicações), criado em 2000, com um enorme estoque de dinheiro originado de receita operacional bruta das empresas de telecomunicações e de outras alíquotas legais. Previa-se a colocação de 250.000 computadores em 12.500 escolas públicas de ensino médio no Brasil. Pois bem. Quatro anos depois e com uma montanha de mais de 2 bilhões de reais, o FUST continua silencioso como as madrugadas do semi-árido piauiense. Mudou o governo, mas os nossos burocratas e tecnocratas, certificados ISO-9001 em lentidão e travamentos, ainda encontram dificuldades para resolver o “deadlock” em que se meteram, quando criando uma mistura explosiva de tecnologia e política, paralisaram o projeto que faria Tertuliano conhecer o mundo pelos olhos da internet. No impasse de discussões sobre Microsoft e Linux, Bill Gates e Linus Torvalds, Office e Star-Office, os bilhões do FUST foram sendo silenciosamente contingenciados em nome do enigmático superávit primário. Enquanto isso, Tertuliano continua achando que “grande rede”, é somente aquele artefato rústico, que seus pais esticam no único cômodo da casinha do sertão, onde dormem a espera de que os homens públicos acordem.
Agora são 12:30 de uma sexta feira típica de Belo horizonte, quando até as almas barrocas esperam a noite chegar para se encontrar nos botecos. O analista de sistemas P.H.A, que trabalha numa grande empresa de software mineira, produtora de ERP, se prepara para o melhor “caso de uso” do mês. Ele, juntamente com o analista de bancos de dados A.M.T, irão se apresentar para uma platéia especial. Os dois fazem duetos e vocais ao violão, onde cantam todo o repertório dos Detonautas e dos Skank. Hoje estarão se apresentando a um grupo de pequenos pacientes , na enfermaria do Hospital do Câncer Infantil. Não o fazem somente por iniciativa própria. Eles participam do programa da empresa onde trabalham, que libera um expediente por mês, qualquer de seus funcionários para trabalhos voluntários, devidamente registrado e acompanhado.
Esses dois exemplos acima, bem próximos do real, mostram, como a diferença de ações e atitudes de pessoas comuns e tomadores de decisão podem interferir na vida dos brasileiros menos afortunados. Direta ou indiretamente todos podemos, via informática ou outros instrumentos, atenuar problemas sérios ou criar vácuos intransponíveis. Uma questão de transfusão de esperança num pequeno enfermo mineiro ou da exclusão digital definitiva de um piauiense sadio. A diferença entre o Tertuliano de Demerval Lobão e o menino de olhar fugidio, como frasco de soro pendurando no braço, cantando Garota Nacional é sutil e ultrapassa as fronteiras semânticas do prefixo (ir) da palavra (ir) responsabilidade. Faz parte do mosaico complexo deste país, campeão do inexplicável, mestre em desperdiçar oportunidades em nome de intenções nem sempre claramente manifestadas...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ícones da Tecnologia da Informação

Publicado em Maio de 2001

Sempre que alguma tecnologia emerge no cenário verde dólar da Informática é comum observar, atrelada a ela, certos ícones que lhe conferem substância e credibilidade. O uso forte de orientação a objeto por uma grande empresa americana de automóveis, ou as aplicações de DB2 de uma poderosa instituição bancária européia foram alguns desses símbolos apresentados e decantados em seminários e conferências e gestados pela referência positiva de suas implementações. Alguns exemplos, entretanto, gravitam na tênue fronteira entre a realidade e o exagero bem intencionado dos homens de marketing. O tão citado exemplo da cerveja e fralda, exemplificado à exaustão em seminários de BI, Mining e outros assuntos correlatos, chegou a ser objeto de uma avaliação de veracidade por parte de uma revista americana, que concluiu mais pelo excesso de imaginação mercadológica do que pelas forças associativas de produtos(cerveja e fralda), dias(quintas feiras) e pais americanos. No cenário de Data Warehouse, o maior e mais significativo ícone é a implementação do grande armazém de informações da rede mundial de supermercados, hoje presente também no Brasil: Wall Mart. Considerado como o maior DW do planeta, a gigante americana de varejo continua sendo alvo de todos os exemplos citados na mídia. Diferentemente do outro exemplo, este é de bits e bytes. Isto pode ser constatado por quem é do ramo de BI, ou tem curiosidade tecnológica. Basta não perder a oportunidade de ler o livro “Data Warehousing- Using Wall Mart model de Paul Westermann, publicado pela Morgan Kaufmann. O autor, um dos quatro projetistas do planetário armazém de informações da empresa, apresenta de forma didática e profunda a história , alguns modelos, a tecnologia utilizada e uma série de observações práticas deste que é o maior dos projetos de DW. Com uma área armazenada de aproximadamente 70 terabytes(*), o famoso DW começou a germinar nos idos de 88, quando a empresa montou em DB2 no mainframe uma série de consultas baseadas em painéis ISPF(TSO) para ajudar na recuperação de informações gerenciais. Desenvolvido inicialmente como um Data Mart para controle de POS(informações sobre Point of Sale) ou terminais de venda ,orçado em US$20 mi, o projeto evoluiu anos depois para um DW corporativo através da incorporação gradativa de novos assuntos e aplicativos. Seguiram o modelo middle-down moldado pela prática e diferente dos preceitos teóricos de gurus que apregoam um inalcançavel modelo integrado global. O livro navega por assuntos interessantes para os variados níveis de curiosidade. Mostra gerencialmente os aspectos de uma busca incessante por ROI(Return of investment), para a comprovação do retornos de projetos desta natureza . Para os mais letrados no assunto traz também uma série de modelos dimensionais relacionados ao projeto, centrado no segmento de varejo, com descrição de tabelas fatos e dimensões. O livro ilustra com perfeição uma frase dita por Sam Walton, dono da empresa que falou: “ Quase tudo que tenho feito na vida , eu copiei de alguém”. Significativa para o pai do homem mais rico do mundo, ela confere autenticidade. O Projeto do DW da empresa foi iniciado meses depois que eles souberam que o arqui-competidor KMart, já havia iniciado um projeto de BD para controle da tripla loja/produto/semana. Copiar e fazer melhor. Este é o lema deles. Assim o fizeram.

(*)-Nota do autor: Hoje o DataWarehouse do WallMart se aproxima de algumas centenas de terabytes.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quem não vê, mas enxerga(III)

No final dos anos 70, a equipe da então TI da Cemig havia empreendido um esforço conjunto e comprado uma máquina de digitar em Braille, a fim de facilitar as coisas pro lado do João , já, naquela época, um brilhante e habilíssimo programador de computadores. A máquina escrevia em Braille, que João lia com a rapidez de um coelho de desenho animado e datilografava com a destreza de um catador automatizado de milho....
Naquele momento, chegou às nossas mãos uma notícia interessante: Um engenheiro americano, pai de uma filha cega, havia inventado uma sofisticada máquina para leitura de caracteres tradicionais, escritos em que língua fosse. A máquina era algo do tamanho de um gravador de cassete da época, e funcionava baseada numa micro-câmera que transformava o caracter lido em pulsos elétricos que acionavam uma matriz de pequenas agulhas, que, por sua vez, moldavam a forma da letra escaneada. Ou seja, quando a câmera focava uma letra A, por exemplo, o formato da letra, um triângulo com um corte no meio era sentido pelo dedo indicador do seu usuário, justaposto no receptáculo onde ficava a tal matriz de agulhas. O deficiente lia, em alfabeto universal, por alto relevo, por assim dizer. Letra a letra, ia montando mentalmente a sintaxe das palavras, a semântica da frase e costurava o seu contexto. A equipe da TI, imediatamente iniciou um projeto de comprar a máquina, chamada OPTACOM. A compra era um grande lance de ousadia. A máquina era importada, custava quase o equivalente a um Wolks zero na época, além de diversos pontos de dúvidas a respeito da adaptação do usuário deficiente que tinha que canalizar a sua sensibilidade para a ponta do dedo indicador. Imagine o quanto isso produziu de brincadeiras e octanagens. Essas bobagens o faziam delirar, especialista que era em duplo-sentido. Na época, a equipe conversou com pretensos usuários da máquina, e todos haviam desistido nos primeiros testes de sensibilidade. Eu me lembro que , numa ida a São Paulo, procurei por um deficiente visual, também programador, do banco Itaú, que me falou das enormes dificuldades e da sua desistência do Optacom. Em suma, um projeto de altíssimo risco, dadas às condições de preço, adaptação e da burocracia infernal que o Governo impunha para se importar algo. Pesquisamos e vimos que era mais fácil importar um Jaguar do ano do que a tal máquina. Como a equipe da TI sabia o que aquilo representava no desenvolvimento profissional de João ,decidiu-se por tocar o projeto. Fizemos uma rifa de uma televisão e o restante do dinheiro necessário, foi emprestado pela Forluz. Resolvida a parte financeira, faltava equacionar o aspecto da importação e da sensibilidade do dedo indicador, que João garantia haver desenvolvido muito bem, sem explicitar detalhes do como.... A equipe da TI, através de pesquisas, chegou a uma instituição em São Paulo, chamada Fundação para o livro do cego do Brasil, hoje Fundação Dorina Nowill para cegos. Essa instituição, fundada pela senhora que lhe confere o nome, foi o gesto maior de uma rica paulistana que resolveu dedicar parte de sua fortuna à nobre causa de aliviar um pouco o fardo das pessoas cegas no Brasil. Ela também é cega.
Bingo.. Falamos com a Fundação, que nos informou que poderiam intermediar a importação, mas antes exigiam um teste do pretenso usuário num Optacom de que dispunham, devido à extrema dificuldade que o aparelho apresentava na adaptação. A equipe da TI, montando uma operação de guerra, conseguiu uma passagem para João ir a São Paulo, a fim de se submeter ao teste decisivo. Aproveitando uma ida minha a São Paulo, a serviço, ajeitei uma entrevista com a equipe da Fundação. E lá fomos nós, eu e João , em direção a Fundação do Livro do cego do Brasil.
A instituição, uma espécie de último reduto de deficientes visuais de todas as idades(de recém-nascidos a anciões), sugere logo no seu primeiro contato, o quanto somos aquinhoados por termos a faculdade da visão perfeita, sentido que transformamos no nosso canal de comunicação mais importante, eficiente e informativo.
Na sala de testes, após rápida entrevista, a instrutora colocou João no Optacom separado e ficamos(eu e ela) num outro terminal, por onde fluíam letras isoladas, de tamanhos diferentes e em velocidades que ela aumentava ou diminuía, na medida da dificuldade de sua identificação. Depois viriam frases compactas e textos mais longos. No outro lado, João com o dedo indicador espetado no Optacom, teria que interpretar as letras que estavam fluindo, como num letreiro de teleprompter.
Regras colocadas, o teste se iniciou. A primeira letra, João não consegue identificar, Nem a segunda. A partir da terceira começa a dar sinais de uma percepção sensorial fora do comum. O tal dedo que João garantira estar treinado, não perdia mais uma As letras se sucediam na tela do computador, enquanto João passava a identificá-las montando frases , como se fosse um vidente em transe psicográfica. A instrutora continuou e depois de algumas baterias a mais, me falou:
___Poucas vezes vi isso na minha vida. Pode comprar o aparelho imediatamente. Vamos discutir a importação, disse ela...Compramos o aparelho e João usou desde então.Por muitos e muitos anos, o aparelho foi o seu grande aliado. Ele lia telas de terminais, impressões de computadores, livros e apostilas e até bula, bastando trocar a câmera, cada qual adaptada a um tipo e tamanho de escrita. Mais uma vez, João mostrou a sua capacidade de pulverizar dificuldades, que para nós os mortais seriam intransponíveis. Essa é a figura singular de João, que estudou Administração na Federal escutando textos gravados pela sua esposa, transformando-se em brilhante analista de sistemas e continua a ensinar que não existem grandes obstáculos, mas apenas vontades menores de vencê-los. Esse João, que não sabe como são as formas do mundo, o rosto dos amigos, as feições de suas belas filhas, também não tem nenhuma referência sobre as cores. Esse João aprendeu a ver o seu mundo, livre de limitações geométricas e todo pintado de azul, cor aliás que ele não sabe descrever com palavras, mas entende com o seu coração de cruzeirense apaixonado....

sábado, 25 de julho de 2009

Quem não vê, mas enxerga(II)

Certa ocasião, convidei João para almoçar comigo. Fazia isso algumas vezes, não só pela amizade e pela possibilidade de estar aprendendo com ele, mas também para fazerem os meus filhos começar a refletir sobre o conceito efetivo do que é dificuldade. Meus filhos o tratavam de Tio João e , pela idade, transbordavam uma curiosidade natural quando o viam chegar comigo, pilotando uma bengala branca e óculos escuro. Eu sempre aproveitava para transformar a curiosidade das crianças em aprendizado de vida, contando-lhes como João vencia os obstáculos, que eu próprio às vezes esconjurava, em lamentos freqüentes do meu cotidiano. Certa vez, numa das idas para um almoço, fomos conversando amenidades quando João me perguntou se eu ia sempre de carro para almoçar. Na época, eu morava na Rua Tenente Garro, quase esquina de Contorno, e lhe respondi que sim, que evitava ir de táxi, mesmo sob a possibilidade de, na volta, não ter uma vaga para estacionar nas imediações da Barbacena. Usando expressões irrefletidas, falei
___João, táxi é muito caro. Eles cobram o olho da cara.... Um segundo após, eis que ele me responde:
___ Então, eu poderia ter vindo, pois não tenho um e pagaria com o outro que é de vidro.... Será que o taxista aceitaria?.... Numa incomum demonstração de paz interior e de pleno domínio das agruras da vida, ele me deu uma resposta, com um viés que sempre foi a sua marca registrada: a irreverência com que debochava das fendas enormes que o destino lhe colocava no caminho. Isso tanto no sentido figurado, quanto no sentido material. Algumas vezes, ele foi parar no fundo de buracos abertos pela concessionária de telecomunicações de MG, inconseqüentemente deixados sem a devida sinalização. Algumas empreiteiras, consideradas de visão, não enxergavam um palmo a frente do nariz. Menos do que ele, dizia João, esgrimando a sua verve de irreverência .
Chegamos para o almoço.Na época, o meu prédio era de 3 andares,mas existiam mais outros dois abaixo do nível da rua.. Assim, quem parasse no último nível de garagem, como fiz naquele final de manhã, teria que subir o equivalente a 5 andares, pois o prédio, por ter 3 andares oficiais, não tinha elevador.. Na realidade, tinha 5 andares , mas dois estavam escondidos....
Subimos os 5 andares, eu aplicando os conhecimentos de acompanhante de cego, que ele próprio me ensinara. O guia não segura no braço do cego. O cego simplesmente toca o braço do guia, deixando-se levar sem apertos e amarras.
Depois do almoço, iniciamos o retorno, em direção ao carro, estacionado no último nível da garagem, cinco andares abaixo. Percebi então, que João , embora guiado por mim, fazia o caminho de volta, descendo as escadas com muito mais rapidez e desenvoltura e sem usar a bengala como sinalizador de degraus e patamares. Quando chegamos na Cemig, lhe perguntei intrigado, o porquê daquela rapidez inesperada e impressionante, próprio de um menino serelepe descendo degraus que conhece como a sola dos pés.
____Simples, meu caro. Na subida, eu fui contando os degraus e os lances de escada. São 70 degraus e 10 lances, afora o degrau de chegada na última garagem. Na descida de volta, fui simplesmente diminuindo a contagem . Sem problema. Eu sabia, que num intervalo de almoço ninguém constrói mais degraus numa escada já existente. Não daria tempo.......
Esse é o João . Rápido nos números e hábil em usá-los a favor dos seus amigos. Até hoje, passados mais de trinta anos, ele telefona religiosamente para minha casa todos os dias 06/03, 13/05, 07/04 e 31/03 para abraçar os seus amigos, que aprenderam com ele, coisas que não teriam aprendido sozinhos.... Nunca a sua matemática se esqueceu de um dia sequer...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Quem não vê, mas enxerga

Vamos chamar o nosso personagem de João , nome real, de uma figura que muitos conhecem na Cemig, principalmente na área da TI-Tecnologia da Informação e com quem, aliás, aprendi muito na minha vida, como veremos abaixo. O João , tornou-se deficiente visual , quando menino ainda afinava varetas de pipas e acidentou-se aos nove anos. Daí em diante, trilhou o caminho que só os grandes vencedores costumam percorrer com brilho, principalmente num país cheio de dificuldades intransponíveis, mesmo para os que dispõem dos recursos de duas retinas e dois nervos óticos. Sem falar, naqueles que mesmo com todo esse aparato, fingem não ver.....
O nosso causo começa então, já com João trabalhando na área de Informática, nos idos dos anos 80. O nosso personagem, cumpria a sua jornada diária, saindo de sua casa e chegando à sede da Barbacena, como carona, ajudado pela boa vontade de um outro companheiro, que chamarei de Sávio. Na época, o transporte solidário não era tão comum, e neste caso, tornou-se fundamental devido à facilidade oferecida a João , numa espécie de busca e “delivery” diário movido pela solidariedade do amigo. O ritual era sempre o mesmo: Sávio estacionava nas imediações da Barbacena, e juntos seguiam para a sede, onde trabalhavam no 3. andar. O João , costumava ensinar os que sempre o ajudavam, instruindo-nos, na condução correta dos deficientes visuais. Coisas que aprendeu no Instituto são Rafael, onde foi mais mestre do que aluno. No saguão, pegavam o elevador, naquela época já lotado e chegavam ao terceiro andar. Lá postavam-se na fila em frente ao relógio de ponto, para as devidas marcações. Sávio marcava o seu ponto e João , sem ajuda, roçava o costado da mão ao longo da ficheira e localizava imediatamente o seu cartão, sem errar uma única vez Batia o cartão e pronto.. Ambos, com os pontos marcados, seguiam para a mesa de João , onde Sávio o deixava para iniciarem o trabalho do dia. Isso aconteceu por anos a fio, sempre com o mesmo ritual. Um certo dia, ambos estavam postados na fila para fazerem a marcação do ponto, quando Sávio percebeu algo de errado: Os cartões não estavam na ordem que sempre se encontravam e Sávio não conseguia encontrar o seu.
___ João, mexeram nos cartões e não estou encontrando o meu e nem vi o seu também, disse o amigo, com um ar de estranheza interiorana.
João , deu um passo adiante, e disparou o mesmo algoritmo que sempre fizera desde sempre. Roçou a mão por entre os cartões, e analisando mentalmente a disposição deles, por entre espaços vazios e preenchidos, disparou, após segundos de reflexão:
___Sávio, não mexeram nos cartões. A disposição das fichas não bate por completo. Não foram eles que mexeram nos cartões. .... Nós é que descemos no andar errado.... Não estamos no terceiro andar......
Sávio, assustado, olhou para as placas de identificação e constatou que a lotação do elevador os havia levado a descer no lugar errado. Assim, simples como o capim..
Daquele dia em diante, a TI aprendeu a sutil diferença entre os que vêem e os que enxergam. João deu a todos nós a lição, de que na vida não basta aprender a ver, tem que saber enxergar.....

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Meu nome é ninguém

Artigo publicado em Fevereiro de 2001
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Sempre tive certa curiosidade por nomes de empresas e mais especificamente pela genética usada na sua criação. No nome de uma empresa se concentra a sua força , personalidade e o magnetismo de sua identificação. Algumas empresas compuseram o seu logotipo com iniciais de nomes dos inventores, como HP, criada por David Packard e William Hewlet, dois colegas do curso de engenharia da Universidade de Stanford, onde se conheceram num campo de futebol daquela universidade em 1930. A sigla EMC, da gigante da indústria de storage, conta a lenda, representa as iniciais de seus fundadores, dois dos quais ainda permanecem na empresa e o outro, que teria saltado do projeto ainda no início da aventura em Boston, hoje é dono de um simpático restaurante italiano perto cais, naquela cidade. Numa conversa com um amigo, presidente de uma joint venture global recentemente criada, fui informado por ele das dificuldades de se cunhar um nome razoável que já não esteja registrado pelo mundo afora. No caso, a AVANADE, nome da empresa “joint” entre a ex Andersen Consulting e Microsoft é uma marca absolutamente neutra, desenhada por especialistas e produzida apenas por sílabas que se concatenam de forma sonora e estética, nada mais. Não é palavra existente e não traz consigo nada de implícito e esta parece ser a tendência desta nova fase de identificação corporativa global. O cuidado óbvio é a produção de um vocábulo que além de plástica, possua uma sonoridade que não crie embaraços em outras línguas e culturas. Um empresa recentemente criada com o fonema “vaia” no seu nome talvez possa ser um exemplo dessa natureza. Me lembro das primeiras empresas de Informática, que obrigatoriamente continham radicais como SYS, PRO, SIST, COM, DATA, TEC, PROC, etc, combinados das formas mais variadas. Depois, com a fase WEB, apareceram as formações como DataWeb, WebCom, Webdata, Comweb, etc e até dizem que foi feita uma proposta de uma empresa chamada Web Camargo para uma famosa apresentadora da TV brasileira. A tendência por nomes “clean” é acentuada , como pode ser observado no novo nome da ANDERSEN CONSULTING que passa a ser chamada ACCENTURE, numa linha light, neste caso com claras intenções de dissociação atávica. A parceira da Cemig, Southern Energy, passará a se chamar MYRANT, numa busca pela nova tendência por nomes originais e com visibilidade. GENUITY é o nome de uma nova empresa que sai da poderosa GTE para prover serviços de Internet e NEXXA é o novo nome da Technosource. Ao meu amigo, Paulo César, que inspirou a criação deste texto, ficam os créditos. O nome dele: PC Faria, é figura sempre presente em reportagens que contam sobre os embaraços dos homônimos...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Despedida via internet

Publicado em Abril de 2001. Texto enviado aos colegas da Cemig, quando me aposentei.
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Dentre as mais paradoxais utilidades estabelecidas para um micro-computador ligado em rede, uma se destaca: a sua aparente missão de substituir as cartas e os carteiros de ante-ontem. Esses dois elementos sempre foram instrumentos líricos de comunicação e inspiraram obras primas como “O Carteiro e o Poeta” e “Nunca te vi, sempre te amei”. Sempre se incumbiram de levar as mensagens caracterizadas pela entrega física e individual de seu conteúdo, colocados à porta do destinatário . Uma carta, um telegrama ou um bilhete físico foram substituídos pelos e-mail de hoje, criando uma atmosfera onde se perde o encantamento do papel, a estética do envelope e o contato táctil na manipulação de suas folhas. Os e-mails hoje, úteis mas controversos, trazem a frieza das mensagens empacotadas, a mesmice dos envelopes digitais e a despersonalização das assinaturas pré-fabricadas . Importantes pela rapidez e imaterialidade de sua essência, mas custosos e cansativos pela forma invasiva com que as vezes nos chegam. Estatísticas aterrorizadoras apontam que grande parte do tempo de um internauta de hoje é consumido na eliminação dos lixos digitais a que somos submetidos pela internet. Os e-mails, como as cartas de antigamente, podem conter mensagens singelas como o capim , mas diferentemente das outras, os digitais servem de base para mecanismos com os quais se criam falsas intimidades. Desconhecidos fazem chegar ao seu quarto, no respiro da noite, mensagens que nem os amigos mais próximos conseguiriam fazer, na época dos estafetas de carne e osso. Chegam a nós pela força dos átomos e pela imaterialidade do protocolo, tão diferentes quando comparados com os tempos das velhas missivas. Como tudo tem sempre um lado positivo , os e-mail se postam, entretanto, como uma forma boa de dizer adeus. De produção rápida e de clonagem imediata, eles cumprem bem a missão de passar informações sobre colegas que se desligam das empresas e apontam seus novos rumos. Canal adequado quando se deseja a hipotermia das emoções. Uma das formas menos desconfortáveis de dizer adeus aos amigos é mesmo através do teclado dos computadores. Dessa maneira, você simplesmente tecla 5 letras num e-mail e com mais alguns comandos SMTP a palavra Adeus, viaja via TCP/IP para pousar discretamente na caixa de entrada dos seus colegas. Fica lá guardada até o próximo delete ou shut down, eventualmente se retém por alguns meses em um disquete, e até mesmo pode permanecer na memória dos amigos por um tempo indeterminado. Para alguns, até o próximo cafezinho. Para outros, até a última molécula de oxigênio. Esta forma prática de despedida evita os abraços e a força magnética das lágrimas induzidas. Uma forma marota de evitar uma espécie de exposição de sentimentos, tal como um existia nas cartas de despedidas de ontem. A frieza digital a serviços do drible das lágrimas . As lágrimas, por sinal, são uma interessante demonstração da força da natureza dos homens, tão cheia de dicotomias invisíveis. Julgadas erradamente simples gotas de tristeza na despedida dos amigos, elas servem também para dissolver o cisco incômodo que nos machuca em dias de ventos fortes. Só recentemente o homem sintetizou a lágrima, dizem os jornais. Conseguiu criar em laboratório uma substância, com as mesmas estruturas complexas de sua composição. Artificial, como algumas que conhecemos, mas suavizante como a original. Talvez um dia consigam também criar um mecanismo para contê-las. Até lá, os amigos se despedirão dos amigos, com ela por perto.....

Sobre os livros






Tenho dois livros editados, que foram escritos baseados nas experiências na empresa onde trabalhei e nos diversos projetos de consultoria de que participei.
Ambos estão esgotados, não propriamente por seus méritos, mas sim por demérito das editoras escolhidas por mim, que hoje desapareceram do mercado, como sumiram os últimos vestígios de honestidade e probidade neste país. O livro de Business Intelligence-Modelagem e Tecnologia, será reescrito, com nova abordagem e pretendo lançá-lo até o fim do ano. O outro, de modelagem de dados, poderá evoluir para algo como modelagem de informações, conhecimentos, etc, quando esses assuntos(mais especificamente o último) estiver mais maduro. O livro de BI continua com certa procura, pois é um dos poucos, senão o único(não tenho certeza), sobre o assunto, escrito por autor brasileiro. O outro que existia, foi retirado após uma batalha que empreendi contra a editora e o autor, por plágio. Ganhei a causa, que sequer foi contestada em instâncias superiores da Justiça. Recebi indenização por danos morais e materiais. O autor, copiou, via scanning, uma dúzia de páginas do meu livro, sem ao menos, fazê-lo constar nas referências bibliográficas.As vezes a gente sente que a Justiça nesse pais funciona, principalmente quando somos os vencedores da causa!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Inundação de informação-CW junho/2001

Agora entendo um pouco mais a idéia de sociedade de informação. No início, achei que o conceito se atinha somente aos aspectos técnicos de se produzir bancos de dados e Data Warehouse para armazenar estoques infindáveis de campos textos e binários, devidamente cozidos e condimentados pelas necessidades de negócios das empresas. Hoje, associo este conceito à inundação de informação. Recebo, sem exageros incontidos, mais de uma dezena de revistas “físicas” por mês e outras tantas virtuais, pelas quais, diga-se de passagem, não tive, sequer o protocolo da solicitação. Fazem parte do novo conceito desta sociedade de informação, onde a democracia do conhecimento está sendo aquecida , movida claro, por instintos comerciais indiretos. São oferecidas nos mais variados sabores e assuntos e convergem para a irreversível tendência das publicações pagas pelos anúncios e não mais pelos assinantes. De você, os editores desejam o folhear das páginas, eventuais comentários na seção de cartas e o simples engrossar das estatísticas de leitores. Dos anunciantes, buscam intermediar o seu interesse como leitor, mesmo que você na prática, somente toque as capas e não consiga tempo para a digestão de tal self-service de informação. Você, desempenha uma espécie de anonimato bem vindo, onde vale a premissa codificada(no velho Fortran) de leitor = leitor + 1. Você será selecionado por vários mecanismos caçadores dentre eles, o seu id(e-mail) vagando pelo espaço físico ou virtual da sociedade. Essas publicações atacam um vasto espectro de assuntos, sempre centrado naqueles de maior holofote no momento. Gravitam pelas fronteiras sempre interessantes entre a tecnologia e negócio e se apresentam com nomes com voltagem e decibéis elevados como Ponto-Com, Business Intelligence, e_Commerce, CRM, ERP, atrelados a subtítulos como World, review, Management, etc . Trazem, por vezes, artigos bem construídos e de elevado interesse e nos momentos de baixa fecundidade de inspiração recheiam as suas páginas com informações como a opinião de Bill Gates sobre a morte ou a marca do notebook de Bin Laden, encostado ao seu lança granada no bunker-office do Al Qaeda. Embora sem custo direto, essa nova postura de popularização de informação apresenta como ônus, a impossibilidade física de seu consumo. Embora, sendo a informação considerada oxigênio e ouro em pó, estamos na boca de vivermos a síndrome do seu excesso. Com tal avalanche de publicações, despejadas semanalmente no seu escritório, abrem-se três problemas: O primeiro, a busca de uma técnica(ainda não desenvolvida pela ciência), de captura extra sensorial para transferência direta de conteúdo intelectual seletivo, a ser disparada pela simples avaliação dos títulos e chamadas de capa. Algo como uma absorção mediúnica de informação por banda larga. A segunda, a contratação de uma estrutura de logística para o controle e administração dos particulares armazéns(de revistas) de informação, que estaremos montando, caso não consigamos exercitar com destreza , o hábito do seu descarte imediato . E a terceira, a criação de uma nova ordem da Informática, que batizo, desde já, de Information Choking(asfixia por informação), que por sinal, terá uma revista gratuita mensal distribuída para os seus praticantes.........

Heróis dos bits e bytes-19/05/2003

Você já reparou como a Informática, via de regra, não costuma decantar muito os seus heróis? A informática, no seu voluptuoso viés de fazer dinheiro, prima pela divulgação de seus mitos, mas não de seus heróis. O que vemos nas capas das revistas são figuras de semi-deuses como Bill Gates, Michael Dell , Scott Mac Nealy e Louis Gestner que construíram ou reformataram impérios, galgaram o topo da pirâmide Forbes no ranking das fortunas, mas estão longe de ser heróis. Tiveram grandes méritos pela visão empreendedora, mas não produziram um “breakthrough”, por assim dizer. Diferem dos Mandrakes das nossas antigas revistas de quadrinhos. Heróis para mim, são os outros. O cara que inventou o display de plasma fininho que nos permite aliviar os problemas de lordose e escoliose(entortamento de coluna) ao carregarmos os notebooks pra cima e pra baixo. O cidadão que pensou no mouse, como uma engenhoca maravilhosa que nos faz pilotar essas máquinas titubeantes, como se as dominássemos com a ponta dos dedos. O outro, Linus Torvalds, que modificou o velho Unix e criou o seu clone barato, gratuito e universal. Esse, até que costuma ser badalado mais do que os anteriores. De maneira geral eles não circulam pelos sites da hora e raramente aparecem nos textos do tecno-modismo. Na 6a feira, 18 de Abril(*), morreu um desses heróis. Quase de forma anônima. Isolado no sul da Flórida, para onde convergem os idosos americanos em busca do aquecimento final, o Dr Edgar F. Codd faleceu aos 79 anos. A atual geração de DBA’s e analistas de suporte provavelmente pouco ouviu falar deste senhor baixinho, calvo, de rosto redondo, com quem tive oportunidade de conversar por longos 30 minutos, numa tarde de Junho de 1983. O Dr Codd simplesmente criou o modelo relacional, fomatação de bancos de dados de maior aceitação desde a invenção do conceito, nos idos dos anos 60. Quando o mundo de bancos de dados se debruçava sobre as complexas estruturas encadeadas de hierarquias e grafos, para construir sistemas e programar códigos, esse senhor, matemático de formação, via ali uma outra possibilidade. Os dados poderiam ser tratados com uma capa algébrica, semelhante àquela aprendida pelos meninos nos colégios, onde operadores de união, seleção, intersecção e produto cartesiano permitiam manipulações padronizadas. Com isso foi aberto o espaço para a linguagem SQL, que ele ajudou a definir nos laboratórios da IBM de San José. Pouco antes de se aposentar, em 1983, conversei com o Dr Codd num seminário no RJ, onde a IBM promovia o lançamento comercial do seu novo produto de Bancos de Dados: O DB2. Ele me falou, com certo desapontamento, sobre a distância entre as suas idéias teóricas fervilhantes e as “features” relacionais , ainda modestas, implantadas no primeiro release do produto. O DB2 teve o seu DNA de origem centrado no sistema R, protótipo relacional desenvolvido no meio dos anos 70, totalmente calcado nas teorias do Prof Codd. Recentemente, uma revista da IBM, dedicou especial atenção aos 20 aninhos do produto DB2, que embora tenha perdido o bonde do ineditismo para Larry Ellison e seu Oracle , foi o precursor conceitual de todos os SGBD da estirpe relacional. Falou sobre a sua história, entrevistou os antigos desenvolvedores, e mostrou o seu acoplamento com o futuro(XML, dados espaciais, etc). O prof Codd, não foi citado. Deve ser duro morar num país, onde os heróis não são mais lembrados alguns anos depois dos seus feitos......

(*)-2003